terça-feira, 28 de fevereiro de 2017 0 comentários

Calamitatis

A sede de compreender, de ter, são maiores que os crisântemos que eu vi num jardim pressuposto, na orla da mais vil de todas as necessidades dependentes de vir a ser.
São maiores que as saudades os saberes, é maior do que a surpresa o abranger.
Sinto-me iniciado. Leio não mais para me distrair, e ergo o olho para os livros, estonteante e tão próximo de centelhas factuais.
Não há grande aventura senão como ter amado primeiro a si mesmo, como direito verdadeiro e direto; mas, me pergunto o que é o amor... O que seria o eu, ou o amar-me a mim mesmo... 
Não sei. Não sei do mim, do ser, do devir, do ser-ser-não-sendo.
Talvez eu goste das imagens e da personalidade de que me tornei. Este quando se tem personalizável, montado com os outros. Mas o que tenho delas em mim? A verdade enfrenta todos os problemas, quase intransponíveis só de pensar na própria palavra. E estou perdido, no canto de um deserto sem canto e sem centro.

Dos livros ou das pessoas... Que seja; eis-me aqui! Tão próximo do transcendente, e tão sensivelmente exprimindo, dizendo aos meus irmãos que exprimir é morrer.
Ignoro o tempo, às vezes sentindo-o passar sobre páginas e páginas, sobre diálogos e observações; não as observações em si, mas a sensação delas. Prolongando a pressa de externarmo-nos, sem o devido envolvimento interno da consciência.

Um microscópio por vez, e é possível deslocar a razão de um lado para o outro, tendo faces distintas, porque esse é o mal do conhecimento: o de poder andar a roda dele, e ver-se do outro lado.
Não podemos possuir um livro sequer, nem possuir um sonho. Perdemos, antes de nascermos, a capacidade de exprimir qualquer que seja a verdade, e distinguimos-nos dos elementos sutis, invisíveis, à roda de um tumulo sem fim.
Um regaço por vez, um bordado por dia.
Na minha alma ancestral, observo riscos, brechas temporais e fissuras espaciais, nos quais, ignobilmente desesperado e ignorante, passo a registrá-los dentro de mim. Traço-os sem poder crer neles como sendo a verdade total, e me examino como a uma paisagem na sombra: eu creio que posso pensar. Mas a geografia da minha consciência é escassa, e não possuo alheamento necessário para participar comigo mesmo em mim, sem estranheza.
Como dizia o grande Pessoa: “Tudo é complexo para quem pensa”. Eu penso, logo existo na dificuldade de justificar-me; de todo modo, quem não pensa não pode existir? Mas, de qualquer jeito, não importa, porque, eu não conheço a Mônada, e, se eu realmente posso pensar junto à ele, não sei com o que pensaria, nem o porquê de pensar, visto que a engrenagem cósmica à matéria é inerente a solidão profunda. Dessa maneira: Deus está sozinho.
Se a consciência da vida consiste, ante a todo esse abandono, em iluminar o caminho daqueles que estão nas sombras, sabem os deuses onde encontrar o mapa da realidade, e sabem também que essa senda de fulgor cintilante tem a capacidade de cegar.
Se eu bem pudesse coroar a mim como um Buda, e doe-me a cabeça por ser um sem poder o ser. E quão mais belo seria ver por entre as flores; por entre o barro e as pedras; por entre as nuvens e os ventos, o quão profunda é a quietude do coração, inteligível não para mim, mas para um sábio que conhece tal órgão oco, cheio de pericárdio, dinamicamente funcional para bombear o sangue. À parte o sangue, pudesse eu livrar-me de todos os substratos da existência, da cadência de todos os desejos e apegos.
Sim, nascimento é sofrimento. Renascer é estar suscetível a sede, de modo que tudo se funde e confunde, e as metodologias da libertação não funcionam.
Disseram que para encontrar-me, e não pensar em procurar-me. Que não preciso cogitar para ver-me; que eu preciso simplesmente encontrar-me.
Mas o anseio que me leva aos desejos de mim subsiste e relaciona-se com fraqueza à existência sutil do poder de sentir, da força da sensação.
Por temor, me agarro a um ideal; por um ideal, me refaço e modelo. Pronto! Estou em paz comigo e com Deus.
No meu estado de espírito a supressão de libertação é abrigo para um fim religioso, político, econômico, jurídico, familiar.

Mas eu percebo que não estou feliz com isso tudo, que suprimir-me representa a limitação de mim mesmo...
A substância do caminho é o prazer de ter-nos fora de nós mesmos, sem saber agir por dentro, e isso me corta a frio, a mágoa, o coração... Tudo, menos os outros! Aqui dentro, depois lá fora!
Submissão é o nome da existência. E tudo reside por pressão e cansaço, e jugo o padrão de pensamento em perspectiva; em esperar, porque tudo cansa...
E a opressão é, em suma, projetada por um pensamento. Esse pensamento é exercido por outro, que também em suma foi exprimido por uma característica variável antecedente.
A proibição de tudo quanto penso ou tento impedir me proíbe de pensar em obstar.
O receio de não poder encontrar qualquer paraíso, a suspeição de ter acabado sem ter começado, é-me peso sentido real. O medo implica em abrigo, e esse abrigo constrói crenças, esperanças. Medo procede de desespero, que por seguinte, procede de esperar; esperar procede em sofrimento. Toda leitura leva ao menos pastos verdejantes. É aonde cheguei de repente, e não posso exprimir, porque talvez não haja o além na matéria.
O cérebro é indisciplinável, tanto na lucidez das analogias quanto na intenção moral do mistério adornado.


Feliz talvez seja o Yogi, que se encontra no sagrado instinto de não ter teorias...


                                                                                                                                      John
quinta-feira, 1 de dezembro de 2016 1 comentários

Emissão 2


Uma tristeza auroral, feita de estranhamento e de falsas renúncias, uma dor na propriedade que não é privada, um corpo que falta energia para ligar a força da natureza e do mundo. Desenrola-se-me na cabeça social que o trabalho, se se realiza, não se realiza em mim – ele não pertence a mim mesmo, e a civilização não é a educação da natureza, mas sim o declínio dela. Uma doença que tem vários nomes.
Quereria, numa fuga contraditória do tempo e do espaço, evadir do mundo do amanhecer, fugir para algum lugar além do mito de Sião, onde as leis são menos fatais, onde a economia não começa e nem ameaça, onde não há partidos nem juntados.
Mas, não! Leio e estou liberto. E, como uma coroa, as leituras são mosaicos da minha desolação. Nesta consideração está todo um sistema, mas não precisam de conclusões, porque nem eu as tenho; são pensamentos vagos, de impossibilidades, de visões ilógicas, como um pano úmido no canto do corredor escuro, mofado e frio.

Todas as tristezas são aurorais. Num momento me sinto alto: a noite. É como subir num telhado para ver a derrota das poesias que falharam até nas metáforas. A minha potência que nem chegou ao cardápio que eu mesmo montei. E as areias cobrem tudo: a minha vida, a minha prosa, a minha filosofia.
Os outros não têm auroras, são comerciantes, que não fazem poesia, outros, lojistas, empregados – gloriosos no êxtase da engenharia e dos campos sociais. Têm todos, como eu, um coração alegre e triste.
Porém, são todos os outros os vencedores do mundo. São todos os outros os iluminados – menos eu.
São todos os outros os construtores das cidades e dos mercados, dos shoppings e das quitandas, instrutores da matéria. Eu? Um pensamento em ruínas, porque, de tanto pensar em construção, não construiu. Os outros: longos edifícios. Eu: eversão sem gesto.
Não tenho a propriedade, e benditos os que a tem por mim.
O outro: o escarcéu pelas nuvens, nunca infame, mas sempre original. Eu: projeção completa de dissonância cognitiva, corsário humano como um movimento na penumbra.
E contemplo a humanidade, não destacado do mundo, mas de cima do cimo da minha ideia de mim, que procura, ao acaso, o objeto oculto da jornada, o qual não conheço, nem nunca vi.
Como um evangelho copiado, releio e minto para mim mesmo, todas as páginas do meu apógrafo. De que me serve reler? São modelos mentais que escravizam a vida, blasfemam contra as pulsões em nome do paraíso, gritam contra a terra em nome do céu.

Os deuses têm pés argila, mas não são cidadãos, nem engenheiros, nem lojistas, nem cientistas... Falta-me ser engenheiro? Então estou triste abaixo da consciência.
O cansaço de todas as palavras – a inutilidade de tê-las, o cansaço de ter que perdê-las, e a humilhação intelectual de saber que as palavras se perdem com a manhã e com as antenas da comunicação cotidiana.
A miséria feliz da condição – fulgores do espírito, correntes do juízo, sofismas dos ofícios, mistérios das ciências e das filosofias – que têm o mesmo movimento que os reflexos físicos, que a gestão que o estomago e os rins fazem de suas secreções.
Chove, funcional para fora das células secretoras, porque o homem não existe, e não morre, porque a morte não o é.
É tarde, não amanhece. Não desejo que amanheça. Quero ficar escrevendo, porque não sou bom para construir castelos e antenas, nem prático, para emancipar matemática.
Nenhum tempo branqueia a penumbra dessa Apocriphia...

John S.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016 0 comentários

A Lira

Enquanto a Lira tanger
Na costa ou no costumeiro
E ouvi-la com seu ouvido
A orelha do Brasileiro;

Enquanto a Lira tanger
No dorso de uma palavra
E lê-la com negros olhos
A vista que teme a lavra;

Enquanto as reclamações
Não forem uma por uma
Crescendo do executável
Que busca no rio alguma

Lição pra compreender
Poetas desta partí-
Cula que chamamos “força”
Do Cosmos a nos florir

No vaso seco apodrece
Um verso muito vivido
Que alguns haviam ditado
No verso do dividido:

“Divide teu pão e prosa
No prato do pensamento –
Poetas do mesmo cosmo
Versejem no aditamento!”

No plaino destas montanhas
Abraços me vão deixando...
E eu vejo, num outro dia
Afetos a nós, voltando...

(E enquanto tanger Lira
Escuto e não posso ver;
Enquanto, me ouvindo e vendo
Não posso ver e nem ser.)

Enquanto tangem as liras
Na idade de outras bandeiras,
Não pode existir na “casa”

Um bando de sérias freiras!


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Emissão 1

“O que é o homem, para dele te lembrares?” – escreveu o Salmista. Há nessa vida importantes questões, que implicam mais do que o uso linguístico.
Saber que a obra é inútil, inoperante; e muito mais aquela que se não fará nunca. Pior, porém, é a que nunca foi feita. A obra feita é pobre, mas existe, ao menos, sob a ideia de liberdade: as razões para as nossas ações, implicitamente gerais, avaliadas racional e moralmente.
Isso é um problema filosófico, mas serve de alguma maneira, em favor do determinismo. E conquistamos, milímetro a milímetro, o campo exterior que não nascera nosso. Exigimos, dimensão a dimensão, o terreno nulo, de urzes.
Nos sonhos somos os mesmos. No ato, a diferente força de conseguirmos o destino. Sim, é um ato que me aproxima da humanidade. É o ato que está inteiramente ao meu alcance, porque, de resto, minhas imputações só podem referir-se ao meu caráter empírico. Porque talvez eu não possa saber coisa alguma sobre as razões das pessoas, nem suas motivações morais. Não posso desatar o nó da real moralidade das ações, nem mesmo de minha própria conduta... Nunca podemos fazer sequer um julgamento razoavelmente bem justificado. Para cada solução não existe um problema. Conhecer todos os elementos de uma questão? Não podemos.
A primeira mentira: a verdade. A verdade? Talvez o que buscamos no campo da arte como no pensamento, dizia Hegel, é a verdade.  E a mesma, está bem claro, é um problema apenas para a mentira. O filósofo concluí daí que ambos são nossos problemas.
A declaração de que devemos amar-nos uns aos outros não explica por que julgamos isso tão difícil, e nem mesmo um auxílio para que o consigamos. E fazemo-lo por cansaço, ou pela timidez absurda de encontrar um apoio, ou pela necessidade de regressar a teoria.
Uma teoria sobre o mundo; uma teoria humana; um diagnóstico; e uma prescrição para corrigir o estado de coisas – mais nada. Os bonobos preferem o amor, a fazer o pensamento.

São horas talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida. Digo do que ontem fui, e procuro explicar como cheguei aqui. Uma avaliação racional dela, distinguindo aquilo que eu digo da motivação que eu tive para dizê-lo. Mas um de meus principais interesses é a verdade ou a falsidade daquilo que eu mesmo digo, a existência ou a não-existência de razões para acreditar no que acredito. Nesse caso, a motivação me parece ser irrelevante.
“A falsidade de um juízo não constitui para nós necessariamente uma objeção” – escreveu Nietzsche –, “a questão é até que ponto ele faz a vida avançar, preserva a vida e a espécie, reproduzindo-a”. De um lado, ele descreve um juízo como falso, e, do outro, sugere que esse juízo pode apresentar uma espécie de virtude capaz de melhorar a vida. Mas como ele sabe que o juízo é falso?
Dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude, como cria o grande Pessoa. E não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Desse modo, o filósofo deve ter alguma ideia do que lhe serve de justificativa para pensar assim. 

Mover-me é fazer os meus próprios julgamentos à luz das evidências de que disponho, incluindo o que os outros dizem sobre os assuntos. Isto é, declarar-se é ter um valor; dizer-se é objetar.  
A palavra “natureza” me é confusa. Posso, numa terminologia filosófica, analisar uma verdade por definição dependente apenas de seus próprios termos, mas não poderei dizer coisa alguma sobre o mundo. Sobretudo, possuo as minhas previsões, submetidas ao teste da observação e da experimentação de mim mesmo, sob o princípio da verificação.

Ah, absurdos disfarçados! Absurdos de serem um sistema fundado na decência comum da regra de ouro... Visões transcendentes da moralidade absurda, onde a concepção da perfeição humana é inegavelmente masculina, e que por meio de preocupações metafísicas a respeito da realidade última, vai o homem dignificar a crença através da fé.

Tudo quanto tenho feito, pensado, sido (ao menos até aqui), é a totalidade da experiência de mim mesmo e de alguns outros. Noto, com um pasmo não metafísico, que todos os gestos que vagamente recordo, as minha idéias claras, propósitos lógicos, não foram, afinal, mais que penumbra espontânea, grande desconhecimento. No mais íntimo do que pensei não fui eu? Enchi tempo com consciência e pensamento – descaminho dos outros.
Não sei o que é a alma. Consequentemente passei a desconhecer Deus como uma entidade real. Deixei de tentar defini-lo com as palavras humanas. Hoje retenho de início o preceito central de que tudo é sujeito às leis fatais. E, não podendo eu reagir independentemente delas, reagiria apenas pelo próprio fato de elas reagirem em si.
Considero, então, a significância da verificabilidade.
Significado humano: verificabilidade existencial. Por isso não abandonei Deus completamente, porque busco razões para pensar que seja verdade (talvez a minha verdade), em vez de motivos para querer que seja; e é onde encontro questões que, por si mesmas, propõem outras.
Em face do conjunto de atitudes, a descrença pressupõe uma conotação sectária. É no amor que podemos sequer ter a mínima condição em fazê-lo, e que talvez seja o mais verdadeiro conjunto de atitudes.
“Se o amor fosse onipotente, seria Deus” – diz Comte-Sponville, “e que o amor seja Deus é algo duvidoso (já que o amor existe e Deus poderia não existir)”. Que o amor, existe, pretende-se dizer que existe de algum modo – uma vez que a vida, tal como a entendemos, é um processo no tempo. Se Deus é amor, como posso compreendê-lo, se o amor não se encontra no tempo?
Tudo muda, tudo flui, tudo passa. É a verdade de Heráclito. É a verdade do mundo.
Como não conheço o todo, também não posso denominá-lo Deus, como fazia Espinosa. Sobretudo não reivindico definir-me, pois nunca escolhi ser ateu. E recolho-me em mim mesmo, tal qual Etty Hellesim, e esse eu mesmo, eu denomino Deus.
O mundo? Só posso conhecer tal como me parece.
Fui a um momento, e já passou. Já, agora, o conhecimento de mim provém da receptividade de minhas impressões: pensando objetos, coletando conteúdos... Esforçando-me a fundo, a lapidar a melhor versão de mim mesmo, perante a realidade que não me é suprema, nem a última. Porque meu desejo é saber não só o que são as coisas, mas por que são as coisas...

Há uma fadiga da inteligência, denominada psicologia racional, e que pesa mais do que a emoção e a ambição: a fraqueza da alma incorpórea por não existir, a doença da procura da alma e das divindades, que fogem da introspecção e da qualidade humana corporificada e que agem no mundo...
Sim, o mistério dói no fundo da mente; até mesmo no fundo do coração, se assim nos serve a sentença para expor tal dor.
Por detrás da minha derrota mística pelo terreno racional e solitário, surgiu realmente solidão, horrorosa, côncava, onde encontrei uma fuga para fora de Deus. E sob a tensão da característica incontornável da minha condição humana – a antinomia – não invoco nem Deus nem a mortalidade, e no entanto, não faço mais do que repetir a esperança humana comum de justiça...

John S. 
quinta-feira, 23 de julho de 2015 0 comentários

Ensaio sobre a bondade

   
 



O relógio das horas e o prestígio da linguagem autônoma, a progressividade da maiêutica no presente, e tudo na saída de uma pseudoporta, ou na entrada da teia obscura de nossas próprias afirmativas. O relógio passa, e a bondade também passa; todas as minhas afirmativas mudam, porque a moralidade também muda de ideia.
Eu não sou tão bom quanto deveria ser, porém, se, eventualmente, a sociedade me dar algumas semanas, ou alguns anos, eu me posso tornar realmente bom? As boas e más qualidades são relativas à moral, e, penso que tudo na visão convencional de tais conjuntos de regras, de acordo com a conduta que obedece aos padrões aceitos pela comunidade, uma pessoa é boa se for verdadeira, confiável, honesta, autêntica; eis as características do que é bom. Mas um ateu também pode ser uma pessoa boa, porque todas essas qualidades não incluem a Consciência.
Dói-me no fundo da alma, porque sei que o meu trabalho não é apenas ser bom, e para transcender essa dualidade, admito em mim tudo o que não posso... Definitivamente tudo, e estou no presente!
Desenganemo-nos, alma, da vida e da bondade, pois essa é um subproduto, e aquele que está consciente na Consciência, está consciente de seu próprio ser; não nas cortinas que cobrem recursos para certos fins, e sim como a sombra que nos acompanha, que é a sua própria natureza: se eu corro, ela corre; se eu paro, ela para. Não há necessidade: sombra é simplesmente sombra.
Minha bondade, sim, minha bondade... Digo isso porque estou no tempo, e como estou no tempo, preciso me esforçar para ser bom e lutar contra as minhas más qualidades. E sim, incoerentemente ou insatisfatoriamente elas estão presentes, reprimidas, impedidas, castigadas, sufocadas. E ei-las a qualquer momento irromperem à cúpula da civilização cotidiana se eu simplesmente remover esse esforço, para que assim, eu possa tornar-me o que sou, e o que sempre fui.
Sinto que a minha bondade não é natural... Esforço-me arduamente para ser honesto, e estou sempre sério, pois tenho medo de todas as más qualidades que reprimi. Perturba-me no fundo, a irreverência, a não-recompensa pela minha generosidade esperada, e choro, porque a Consciência não é algo a ser cultivado.
O nocivo é a minha tentação, a calamidade, a desgraça é constante para mim, então me empenho para não escolher o mau. Mas tudo o que reprimo durante o dia, me sobrevêm à noite... Tudo o que impeço durante o sol, vomito em meu travesseiro...
Tenho medo, então cultivo a coragem, afim de me afastar do medo, e ganho medalhas: sou vitorioso! Mas vejo que qualquer coisa que nasce de seu oposto contém o seu próprio oposto. E nada foi a lugar algum, está tudo aqui, dentro de mim, apenas esperando o repouso, aguardando a remoção dessas bondades.
Tudo em mim é conflito, e se me perguntarem se sou feliz, direi que não o sou. Sou um homem cuja passagem das horas é-me de condenação e julgamento, portanto, a mesma certeza íngreme que me leva ao labor da bondade, cria em mim a sentença para submeter o alheio pelos mesmos critérios com que submeto a mim próprio.
Por mais amigo que seja de alguém, vejo que acabo não os aceitando como o são. Não mato a vontade de analisar, e observo que nada preenche as demandas dessa bondade, então, as condeno: todos são pecadores.
Mas, a Consciência não tem julgamento, e compreende que posso fazer um ato mau e ser condenado, ou fazer um ato bom e também ser condenado. E sei, que, nunca tive a quem chamar de Consciência, e mesmo se o encontrasse, seria inconsciente dentro de todos esses juízos, porque não há nada para encontrar.
Que me resta? Testemunhar. Que espero? Não escolher.
 Não posso vogar que a pessoa boa seja sinônima da pessoa consciente. As religiões permanecem como códigos éticos. A sociedade conserva-se imóvel na vontade e obediente à lei moral enquanto fixada pelas normas. Mas, as normas não podem ser úteis para ninguém individualmente, porque elas são criadas pelo pensamento; conquanto as conveniências, nesse nível, são necessárias para a sociedade.
Não escolher, eis a régia escolha. Não eleger, então não há necessidade em distinguir rigorosamente entre aquilo que pertence ao campo da psicologia e aquilo que pertence ao campo da lógica. A partir do momento que isso consiste precisamente quando carece de pensamento, há o distinguir na dualidade, e agimos pela impossibilidade e pela repressão.
Quem conhece a si mesmo não tem obsessão, creio eu. Quem conhece a si mesmo está silencioso, e a partir do seu silêncio, tudo o que floresce é o que é. Da mesma maneira que o raio de sol desembarca do plano mais alto, aquele que está no plano intemporal e inespacial está simplesmente alerta, perceptivo, na total consciência da prontidão, e vejo que não se pode ensinar o que é bom, que ninguém pode me indicar o bom, de modo que um dia eu possa encontrar a felicidade.
Sem pedir troféus, nego o bem e o mal, pois através da negação, o positivo existe no mar que nos tem, no sonho que não consola, no sono que não repousa. E tudo consola, e tudo repousa, porque não existe, e não pede recompensa, pois é o agora – na solidão presente de todas as passagens...


John
terça-feira, 23 de junho de 2015 0 comentários

Intervalo Doloroso

A doçura de não ter companhia. Fluido de acordar de manha e ter consciência do céu, de ver as nuvens negras, lentas, de branco sujo nos intervalos. Fluido, no desassossego, porque eu não sei se existo e nem quando estarei disponível a findar.
Fluido... Fluido incerto, onde tentei acender uma candeia no meu coração, candeia essa que fosse capaz de iluminar um dia inteiro, na esperança de render uma noite a mais no meu diário lúcido.
Cada nuvem é um juízo, uma doçura e uma espécie de estado indiferente delas próprias, enternecidas pela abstração da razão que não tenho, inventadas na minha invenção dentro do que elas não são.
A doçura de morrerem todos, lentamente, como lágrimas rítmicas. A doçura... Ah! Ah doçura que cada uma me contou de suas razões, ou as histórias morais de suas metafísicas; e isso tudo é uma quadro na minha parede, com a minha infância junto, tudo misturado, com uma só essência, com um só horror...
A moral em torno dos gestos; a religião em torno dos fenómenos. E em tudo, o ser bom, a adoração como uma perfumaria, que arremete a visualidade humilde dos cheiros e dos estados subjetivos.
E todos são como nuvens, cujo Deus que os movera de sentidos profundos, meneiam na companhia dos corpos e das ideias; sem corpos e sem ideias, porque tudo é oco, a alma é oca. Se penso, as nuvens morrem; se vejo, os deuses acabam. Se penso isto e olho, para ver se a realidade é aquilo que sou, sinto o tempo presente com uma dor enorme, onde os mortos estão, mas não existem.
O tempo, que os mantém reclusos deles mesmos na ideia de mim, cuja maior completidão humana, evocasse desterrado a caminho de uma porta sem porta, à liberdade que não os conhecem, seria mostrar todos em outra linguagem de ser, de mortes nenhumas, de coisas nenhumas, e o credo e a bondade não fariam sentido diante e fora de tudo disso.
As nuvens são boas porque simplesmente o são. Mas, moralidade não é religião. Ter credo fundado em bondade é sofrimento; subproduto da sociedade. Ser simplesmente bom é ser bom.
Não quero ter uma bondade cultivada. Eu tento ser honesto, esforço-me arduamente para manter-me consciencioso, digno; porém, à noite, preciso remover o esforço de ser bom, preciso desreprimir minhas más qualidades, desvelar enfermidades.
Minha avaliação de escolha censura nos outros o que em mim nunca tornou-se criterioso, e ser criterioso é enfadonho, porque é difícil aceitar as pessoas tais como o são. Não preciso ser obcecado pela bondade, nem teimoso no capricho. 
Soube eu fazer um ato mal, e ser julgado; soube eu fazer um ato bom, e também ser julgado. Meu Deus... Meu Deus... Meu Deus... Preciso de compaixão, porque eu não sei o que mau e nem o que é bom.
Nestas horas de mágoa, aquilo que fui, sozinho na noite de mim próprio, com todas as portas fechadas, uma tristeza com som de mãos molhadas de lágrimas, a torcer no escuro, gesticula sons e símbolos. Na analise da minha consciência, o mundo parece consistir na abstração de ser consciência-essência – aquele que doou o sentido do mundo na intencionalidade como fenómeno.
Que desapareçam as nuvens e os mortos, e meus pensamentos sejam excluídos da base herdeira das convicções para proporcionar meios e caminhos à pureza irrefutável de Deus?
Para compreender, preciso me dirigir à essência e sintetizar todas as características de fundamentação?
De todo modo, eu, sujeito empírico e concreto, reconheço a minha participação na posição natural do mundo e na proliferação dos seres.
Aí algo, uma mão, um som que levanta o véu de Isis a quem nenhum mortal ergueu; salvo H.P.B, talvez... E me mostra que preciso reduzir a percepção a um estado antes dela mesma. Perder o mundo para ganha-lo. Perder Deus para ganha-lo genuinamente na realidade da natureza, dos homens, das nuvens, da terra, fora de circuito para reter o contato imediato com a disciplina fundamental de todas as ciências...
E no fundo, no fundo da impossibilidade de encontrar a Mônada, abre-se-me um abismo imenso de renúncia e solidão, erguido dos túmulos da desconsolação, com arautos que tocam, com os estrépitos de atabales e címbalos surdos – o mundo se perde em mim, e morre no fundo da minha alma...

John
domingo, 3 de maio de 2015 1 comentários

Exame fracionário

O meu interesse pela vida começa na inação das horas que esmorecem a cada estado de alma incompreendido, a cada partícula incandescente dentro do meu efêmero corpo e a cada lampejo de inspiração por parte daquilo que não sei o que é. Quando a comunicação com os homens me parece escassa, é hora de afundar nas artes do escondido; não pelo fato de estar preso à mente dual, mas pelo fato de que isto é o destino que tenho e compreendo como sendo meu dentro das expectativas que tenho.
À paisagem atribuo um limite exterior de matéria que constitui uma configuração natural de sua condição, e sua fôrma e alinhamento às essências particulares de suas substâncias. À árvore, atribuo ao seu molde o cerne constituído pela seiva bruta de seus caules e raízes.     
A ação instintiva da natureza tem um espírito disforme que faz parte da essência coletiva da evolução, assim, os seus desconformes equilibrados com o universo enigmático, cujos átomos nas suas atividades coordenadas impelem qualquer ideia de alma individual que se possa definir dentro de seu conjunto fundamental; sei, então, que uma pedra ou a alface não podem crer em Deus porque não tem estado com que ver claro a consciência e a simbologia astral em si.
Em mim, entendo que não posso compreender o incompreensível se os meus instrumentos falharem, mas que posso conceber uma subjetividade ponderável talvez; e, se o posso, tenho também o arbítrio de ser objetivo e afirmar numa concepção razoável que os atributos infinitos, cujos fins, mesmo vagos, contêm a visão do meu raciocínio subtendido como humano.
Sim, eis-me: uma espécie de raça privilegiada no processo setenário.
Então, por ser eu um ser que pode ser entendido, ao mesmo tempo carrego a polaridade dos outros seres, e os entendo sem a compreensão de entendê-los a fundo.
Cada folha que cai não na sua devida estação me traz uma indiferente amizade e terna longanimidade de acreditar que essa mesma folha possa ser uma companheira na estrada qualquer, e que sua família pode me dar a sombra necessária, porque, nessa condição, não puder julgar-me; e se não pode julgar-me, eu posso contar-lhe os meus segredos e calar-me quando tiver sede. Chorar nos ombros do mar todas as minhas mágoas e tristezas. Pedir às pedras que rolem nas alegrias de serem inanimadas e de não terem estados de alma para me apontarem o dedo à cara. A paisagem não me dá o caminho da verdade, mas mostra o caminho essencial através dela mesma.
Os artifícios dos homens estão cheios de névoa. Noturnos e sós – precisam religar a sua capacidade pessoal de estarem conectados a um Deus também pessoal. Têm artifícios de dentro para fora, e a consequência de falharem na sua vontade, começa de fora para dentro.
A minha simpatia pela vida está na falha herdada e na paciência de vestir-me com mistério, e, sobretudo, por fim, no despir do ocultismo e da estética para além dos átomos grosseiros e dos objetos definitivos de todas as matérias.
Posso dizer, então, que com essas considerações, cada estado de alma imanente tem uma imantação superior aos outros estados. Ela recebe e dá as impressões corretamente ao físico denso, porém, para formular ou simbolizar um pensamento na matéria universal ou esotérica, precisa inutilmente da simpatia desorientada dos átomos aglomerados e os aspectos transitórios para representar uma ou qualquer outra centelha abstrata.
A alma que temos e que paira sobre os nossos sentidos quase fechados, paira também, (porém abaixo dela) a nossa mente abstrata e a nossa filosofia, e isto é que é o veículo que liga a nossa vontade espiritual ao interesse superior do altruísmo.
Não sou, porém, ocultista. Talvez me falhe à atitude congênita para tal, e assim me vejo como os não-integrados no apostolado das Doutrinas secretas.
Enquanto o secreto para mim é o sonho, vivo a representar neles a competência de não ser uma pedra no meio do mosteiro... Amo a humanidade com sonhos secretos que nenhum poeta ousou sonhar. O que julgo compreender sem saber fazê-lo compreensível a mim próprio, ao terror escuro dos grandes mistérios, testifico a expressão do meu vazio sobre eles.
Onde o sonho é tudo na realidade transitória de mim, ponho ante à Deidade eterna e construtora do universo, os sonhos que esqueci de sonhar...

John 
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015 0 comentários

Vendaval



Como um leque que assopra a matéria 
O horror deste vento me afunda:
Gira a roda da minha miséria 
Em mágoa profunda.

E eu vi Deus a fazer com meu nome
Sete abismos na frente do louro
Todos, todos! Eternos de fome
Minha alma de agouro.

É dorido o olhar do volver 
Esse agouro na mão da existência
Sob a forma de um quase-morrer
Sem ter consciência. 

Ah, e assim, se eu pudesse levar
Essas folhas de cada ninguém 
Sem o fardo de ter que pensar 
No páluim do além.

Vendaval, voz da noite já escura 
Roca e dura, com tom de fereza
Olha  a porta da minha amargura:
Tem vento e tristeza. 

Tu, ó vento do Norte e da areia
Olha a praia que vive comigo,
Rasga a prole e abate esta ideia
De ser teu abrigo;

Olha dentro da chuva de mim
Quantos vidros quebrados eu tenho
Pelas águas furiosas, sem fim
Veja como venho: 

É tão triste esse nosso lugar...
Uma linha de folhas e ventos, 
Sete abismos, e tento ligar
Os meus pensamentos. 

E pressinto, tão fundo e tão frio
Que estes ventos de mor solidão
Se perderam no próprio vazio 
Do meu coração.

John 16/01/2015
segunda-feira, 3 de novembro de 2014 1 comentários

Nuntius

I

Eu não pedia amigos, mais verdade
Do que a verdade que pudessem dar,
Nem tanto compromisso entre a lealdade,
Honestidade e a vida por mudar.

Eu não roguei irmãos, por piedade,
Nem mesmo por ternura eu quis rogar.
Eu soube amar a simples amizade;
O falso amigo é que não soube amar.

Oh belos olhos dos avôs que tenho,
Presença tênue que o vento vergou.
Árvores grandes do maior engenho.

Meus pais, irmãos e amados, eu já vou.
Não peço nada horror, cansado eu venho...
Pedi tão pouco e a vida me negou...

II

Pudesse eu por nos vossos corações
Meu coração de amor e de mistério,
De rescindir o céu e o cemitério
O Mor prazer de ver as vibrações.

Se vós pudessem compreender ações
Em que construo a cor do meu império
De solidão, de dor e refrigério –
Com que eu enxergo tantas aflições...

Mas, não! E somos todos inimigos,
Muitas tumbas do lado de jazigos
Separados por deuses sepultados.

Eu não te entendo, irmão, e tu procuras
Apascentar as tuas criaturas –
Na intermitência astral dos desgraçados...

 III


De longe, amigos, fico arrependido
De assim saber que a certa confiança
Nunca existiu, e a falsa segurança
Me deixa eternamente envelhecido.

Eu não pedi um voto compungido,
E muito menos muita semelhança
Naquilo que conhecem de esperança,
E aquilo que é alguém enobrecido.

Eu não entendo, irmãos, esse receio,
Esse temor com esse asco alheio
De não saberem qual dos homens sou.

E eu fico triste só de perceber
Que eu nada tenho para oferecer
E que é melhor ficar onde hoje estou...
 

 IV


Quero escolher o ensejo favorável,
O instante certo, à hora apropriada,
N’aurora, amanhecer ou madrugada;
(Apressar um processo inevitável)

Divago sobre a cena desejável:
Com fotos, cartas, símbolos e cada
Gota de sangue e pranto, misturada
No meu quarto talvez seja agradável...

Tenho família, amigos, e meu medo
É fazê-los chorar quando souberem
De minha históri'e que parti mais cedo...

Ó Mor Tristeza que meus risos querem -
Com solidão, com pranto e intimidade
Os lavarei por toda a eternidade!








 
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