quinta-feira, 16 de janeiro de 2014 4 comentários

A dor de um intervalo



Uma vez escrevi: “Sinto que a minha vitória falhou, que meu sentido de viver a vida estagnou no fundo de um rio cansado, na noite última da derrota – onde choram os heróis, e não se levantam mais...”; porém, eu estava errado...
Aqui do alto, tão perto da ilação tirada das mais variáveis proposições do passado, e que designo colado a mim, leio, em cada úlcera que tenho – o relato mais doloroso da minha adolescência e o sangue omisso de ter gozado a dor da humilhação de não ser amado. E, creio que foi bom que essa experiência da desilusão me acontecesse tão cedo.
Uma multidão de pessoas passou pela mesma experiência que obtive, e acho que compreendem que a noção simultânea da inteligência, conjunta com a sensibilidade dos cataclismos e do cosmo da nossa vida, quando nos chegam à face do âmago central do destino, adquirimos um rasgo de devastação – um entornar de angústia e de desconsolação integral na vitalidade e na alma.
 Eu não sou reformador externo. Inaptos e convencidos a emendar a natureza possível à obra da existência são todos evadidos, e encontrarão no seu combate a incapacidade de emendá-la ao seu próprio ser.
Modificar o mundo sem primeiro nos modificar internamente, torna a nossa sensibilidade morta. A intimidade sutil da reformação pela qual tornamos vivos os gestos mais profundos da nossa verdade, descendo as paisagens e as molduras da estupidez da expressão humana nos torna naturalmente justos e capazes de combater-nos.
Agora, aonde chegar com isso numa grande fatalidade de viver, ainda que a peste e a sujeira não gritem com náuseas supremas? Quem está na solidão, está simplesmente sofrendo por sofrer sozinho, pois quem chora chora só.
Na solidão em que me encontro, considero como um braço de um rio da vida, um cenário de decoração involuntário e verdadeiramente a história da minha felicidade tombada na orla desse mesmo rio que corre e não encontra os outros membros para a locomoção e a preensão de seu fluxo natural.
A tragédia coletiva de sofrer com toda essa sensação de estar sendo oprimido, me torna uma coluna frequente da loucura de morte involuntária; ainda que, de fato, dentro de um martírio tão imposto, perceber liberto da estalagem da ilusão da paixão e do engano da sensação alheia, que o meu estado insuficiente de viver a vida encontra-se dizimado pelo Bruxedo irônico desse universo solitário e profundo.
Hoje estou tão triste, que um conceito sobre ousar ter uma felicidade sem uma espiritualidade é o suficiente para lamentar a minha miséria como homem e morrer no seio inútil de nunca poder compreender a existência monótona dos intervalos da virtude humana.
Sei que não preciso de substâncias alucinógenas para preencher a minha solidão. A minha lucidez é o suficiente para me fazer chorar como um balde derramado...
E, ó, essa minha condição carmica de ter que estar preso num corpo... Ó, este ego enclausurado numa prisão!  Todo esse sentimento de estar só... De ter que ir sozinho ao hospital; de quando enfrentar os maiores problemas – estar só; de quando morrer – ir sozinho para o desconhecido... Toda essa condição de estar nas trevas, e as teorias metafísicas não servirem de nada.
Creio que sou morte, e meu desejo neste momento – é o de morrer. Pode ser que a consciência me guie por caminhos razoáveis, ou a justiça superior da mão de Deus obstrua esta solidão insuportável, ou revogue este amor por algo humilde e que valha à pena chorar.
O sofrimento e a mágoa estão à porta. Os sonhos batem no porão do meu coração todas às noites para mostrar-me o poder de estar aqui... E eu preciso aprender a enfrentar a dor e usar o silêncio corretamente.
Mas tudo caiu, as minhas feridas que cicatrizavam sob as estrelas foram hipocritamente reabertas pelas mesmas joias e diamantes que adornei no esplendor de um castelo que não brilha, de um paraíso feito de barro e saliva.
Tenho vontade de chorar, mas ergo os olhos para o céu de meu quarto e percebo que não conheço Deus, que não estou inteiramente em paz com ele.
Sim, eu paro. Dói no fundo da minha alma a sinfonia da realidade e da traição, rente o calor e a afeição. E depois penso sobre tudo o que construí, que talvez a vida não tenha tanto sentido assim, que talvez o frio e a solidão sejam a minha perdurável companhia... Que o silêncio que trago no meu coração me fará chorar todas às noites... Que tudo acabará numa tristeza que eu nunca conheci...

John L. S. 17/01/2014
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Diário lúcido

Hoje, abatido e humilde, relembrei do "Livro do Desassossego" de "F. Pessoa (Bernardo Soares)", e como de súbita: "sensação agradável em companhia de outros, invejo-lhes a parte que tiveram nessa sensação." Eu pelejo, porém com grande dificuldade, buscar nas inter relações instruídas pelo jeito social ou comum do proletariado, mas a direção talhada no entremeio das exigências furtam as confissões e o caráter razoável do espírito alheio; e ainda que ao princípio isto me possa ser doloroso, quanto mais noto toda essa inércia e essas máscaras coladas à cara, sinto que nunca pertencerei à multidão, que tudo isso me doe muito, muito...

"Embora nunca tivesse ilusões a respeito daqueles que se diziam meus amigos, consegui sempre sofrer desilusões com eles - tão complexo e subtil é o meu destino de sofrer. Nunca duvidei que todos me traíssem; e pasmei sempre quando me traíram. Quando chegava o que eu esperava, era sempre inesperado para mim."
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014 0 comentários

Intervalo doloroso



Senhor, onde estás, mesmo que as minhas súplicas sejam a condenação às penas eternas? Eu quero sentir outra vez a atenção morna do afeto que eu nunca tivera...
Um ombro para chorar, debaixo do braço de uma ama talvez, e uma lareira a chacoalhar as cinzas da minha infância... E ali, relembrar do repouso da alma que nunca tive! Ali, poder olhar no armazém de brinquedos partidos e chorar muito, muito grande, consideravelmente grande...
Eu quero, como um caminho que nunca houvera – uma estrada sem preocupações onde repousar a fronte, pensar na noite que vem e cala e me faz dormir ao regaço das ondas maternais do incompreensível...
Ah, querer ouvir canções num berço sem sentido, transformado em qualquer coisa, sem a meditação da ânsia da vida. Um colo, Senhor, um colo... Um colo quente onde derramar água e sal... Um inverno num quarto maior, que lembra a tristeza quente das horas sentimentais... Não quero mais do que a consciência extraordinária e simples das estrelas, da noite calma e fraternal... Uma vista breve aos arredores da puerícia, e um quadro cujo desenho expressa um suave e langoroso traço de e um campo isolado dentro natureza...
Lembrar das histórias de Tolstoi ou dos êxitos escrupulosos de David Thoreau... Sobre as intangíveis cascatas e as matizes do crepúsculo e da aurora...
Ah, quando não escrevo sinto-me alheio a mim mesmo. Então, às vezes me dói não poder esclarecer a minha ideia e patologia em literatura e arte!
Eu queria um dia de chuva para poder dormir tranquilo ao som de uma canção de ninar... Um segredo contado lentamente, como se a doçura do sonho fosse simplesmente sonhar em ser amado; mas nunca acordar... Nunca...
Ah, um lume, uma luz perto da porta do meu quarto, a solidão tenra a me cobrir como um cobertor feminino, e depois, com um gesto suave, ver a mão de minha mãe desligar a lua e as estrelas... E tudo isso muito intenso, muito leve, muito amoroso, na solidão última da minha esperança...
Mas, onde estás, Senhor? Dói-me a realidade por dentro só de poder pensar que o posso pensar na felicidade infante. Afinal, como posso ser filho de sensações que eu mesmo acaricio? Ai, meu domínio inofensivo, tão profundamente inócuo e inofensivo!... Eu queria poder brincar fora do frio da vida, perto dos dias bons e dos sonhos que consolam, porque a vida dói quando há desejo de viver, e a própria alegria dos homens me é falsa.
Eu fui feliz quando ria, e quando ria eu podia amar e perdoar na minha infância longínqua. Embora eu tenha conhecido Deus, chamar-lhe de Pai sempre me pareceu viável; porém, não compreendo todo esse abandono. Não sinto a graça da alegria de um grande Nome sondar a minha auréola sombria...
Meu Deus, meu Deus, meu Deus... Na minha solidão tão miserável de todos os dias eu choro e chamo por ti... Se eu pudesse ter uma ideia do tamanho do teu amor pela minha alma, sentiria uma alegria no pensamento e no âmago.
Ah, o meu desejo é de morrer... Cessar desta vida misteriosa e vazia, quebrar por entre a noite a casa e afeição que ficou na orfandade sem companheiro e sem vitral com que olhar a pomba morta à sombra.
Vem, ó vento, trazer numa só renúncia, o meu lar e o meu pão... Vem, ó noite de ventos e de solidões, toma-me em teus braços e faz-me teu filho eterno... Vem e me faz dormir no silêncio mais profundo, na tristeza que dói no fundo do meu coração – e não haja quem ilumine a minha alma...

John L. S.
domingo, 5 de janeiro de 2014 9 comentários

Escuta:



Teu frágil coração que bate e sente
O rubro sangue humano e natural
Que faz chorar e faz teu ser “mortal”
Pertence ao passageiro decadente;

O coração, Alê, tão imprudente,
Precipitado, incauto e desleal,
Estorva o centro, o espírito central
Do quebradiço arbítrio irreverente...

O premio todo à joia do desejo
No amante amargo, a mácula do beijo,
Molda em dor e em tristeza nos comanda...


Alessandra é teu nome! É destinada
À razão de vencer e ser amada: –
Há de ser muito mais do que Alessandra!

John L. S. 05/01/2014
sábado, 4 de janeiro de 2014 5 comentários

Mares

Um corpo de água, carne Caxarelo
Em templo azul – de Lulas colossais;
Sobejo verde, Typus de outros sais
Na frota inulta e mole do castelo:

Eu tenho um corpo Cáspio, paralelo
Em nuvens-algas, Hamiltones e ais
Quebrando em vagas claras, abissais,
No olhar dourado, cróceo e amarelo...

Meu fim salgado de água intransponível
Revela transparente o pedregulho,
Um peixe roxo em cais iniludível!

No glóbulo e no corpo todo arrulho
Baleias tenras no índico invencível –
Cardume eterno no Ártico mergulho...

John L. S. 04/01/2014

 
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