sexta-feira, 10 de janeiro de 2014 0 comentários

Intervalo doloroso



Senhor, onde estás, mesmo que as minhas súplicas sejam a condenação às penas eternas? Eu quero sentir outra vez a atenção morna do afeto que eu nunca tivera...
Um ombro para chorar, debaixo do braço de uma ama talvez, e uma lareira a chacoalhar as cinzas da minha infância... E ali, relembrar do repouso da alma que nunca tive! Ali, poder olhar no armazém de brinquedos partidos e chorar muito, muito grande, consideravelmente grande...
Eu quero, como um caminho que nunca houvera – uma estrada sem preocupações onde repousar a fronte, pensar na noite que vem e cala e me faz dormir ao regaço das ondas maternais do incompreensível...
Ah, querer ouvir canções num berço sem sentido, transformado em qualquer coisa, sem a meditação da ânsia da vida. Um colo, Senhor, um colo... Um colo quente onde derramar água e sal... Um inverno num quarto maior, que lembra a tristeza quente das horas sentimentais... Não quero mais do que a consciência extraordinária e simples das estrelas, da noite calma e fraternal... Uma vista breve aos arredores da puerícia, e um quadro cujo desenho expressa um suave e langoroso traço de e um campo isolado dentro natureza...
Lembrar das histórias de Tolstoi ou dos êxitos escrupulosos de David Thoreau... Sobre as intangíveis cascatas e as matizes do crepúsculo e da aurora...
Ah, quando não escrevo sinto-me alheio a mim mesmo. Então, às vezes me dói não poder esclarecer a minha ideia e patologia em literatura e arte!
Eu queria um dia de chuva para poder dormir tranquilo ao som de uma canção de ninar... Um segredo contado lentamente, como se a doçura do sonho fosse simplesmente sonhar em ser amado; mas nunca acordar... Nunca...
Ah, um lume, uma luz perto da porta do meu quarto, a solidão tenra a me cobrir como um cobertor feminino, e depois, com um gesto suave, ver a mão de minha mãe desligar a lua e as estrelas... E tudo isso muito intenso, muito leve, muito amoroso, na solidão última da minha esperança...
Mas, onde estás, Senhor? Dói-me a realidade por dentro só de poder pensar que o posso pensar na felicidade infante. Afinal, como posso ser filho de sensações que eu mesmo acaricio? Ai, meu domínio inofensivo, tão profundamente inócuo e inofensivo!... Eu queria poder brincar fora do frio da vida, perto dos dias bons e dos sonhos que consolam, porque a vida dói quando há desejo de viver, e a própria alegria dos homens me é falsa.
Eu fui feliz quando ria, e quando ria eu podia amar e perdoar na minha infância longínqua. Embora eu tenha conhecido Deus, chamar-lhe de Pai sempre me pareceu viável; porém, não compreendo todo esse abandono. Não sinto a graça da alegria de um grande Nome sondar a minha auréola sombria...
Meu Deus, meu Deus, meu Deus... Na minha solidão tão miserável de todos os dias eu choro e chamo por ti... Se eu pudesse ter uma ideia do tamanho do teu amor pela minha alma, sentiria uma alegria no pensamento e no âmago.
Ah, o meu desejo é de morrer... Cessar desta vida misteriosa e vazia, quebrar por entre a noite a casa e afeição que ficou na orfandade sem companheiro e sem vitral com que olhar a pomba morta à sombra.
Vem, ó vento, trazer numa só renúncia, o meu lar e o meu pão... Vem, ó noite de ventos e de solidões, toma-me em teus braços e faz-me teu filho eterno... Vem e me faz dormir no silêncio mais profundo, na tristeza que dói no fundo do meu coração – e não haja quem ilumine a minha alma...

John L. S.
 
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