domingo, 30 de março de 2014 3 comentários

Assimilações



Quatrocentos e cinquenta e três dias de solidão é para mim não um fenômeno intelectual, mas a experimentação no desempenho do próprio dever e da sensibilidade da alma.
Dez mil horas de lágrimas encolhido na antecipação de viver, antes de tudo, o terreno ermo e a extensão do tempo infinito de Deus neste corpo etéreo.
De novo, a consciência me exulta o átomo da mente, ela registra a terra cujo seio nunca fiz parte, e atenta no presente as flores encouraçadas que o homem não conhece. Conhecendo a mim mesmo, de dentro para fora, posso ver o meu braço alcançando não o bem que já espalhei, mas a glória imarcescível da renuncia e da libertação. Este braço é mental, porém, incapacitado de brilhar sozinho. O Sol brilha e sorri porque Deus o fizera assim; e eu que ouço, vejo, olho e sinto a elevação da ciência e já me canso? Como sossegar no peso de ter que sentir a condensação de mim neste físico denso e não compreender de todo o Ego da minha existência cósmica?
Doem... As coisas mais simples doem no fundo da minha alma...
Se me disser que a verdade está no mais alto homem, ou talvez num Mahatma da Índia longínqua, responderei com o vigor da alma que a sua voz se alarga na multidão de seus nomes desconhecidos. O Cristianismo do Outono passado me acompanhava no caminho da fé e da crítica, e presumia dentro de mim, envolvendo uma ideia de que se há qualquer coisa compreensível, podia discorrer à fé com pouca estalagem de razão. Agora, se realmente não há lugar para um homem só nas teorias metafísicas, o que sabemos são áditos fechados e nada obstruiu o que já era inexistente; nada se fecha quando era antes já, fechamento. Não vejo claro em mim o aspecto de um Deus Antropomórfico, mas como separar-me de um Deus espiritual de todas as matérias?
Estou num processo, e o premio natural desse processo é a morte. A verdade é ela só e mais ninguém. Não sei o que é a verdade; mas sim, sabia o Cristo, por isso silenciou em frente de Pilatos. Pensar sem alterar opiniões é reunir cadáveres em pleno carnaval, por isso pensou César na sua assembleia, e Napoleão na sua ascensão! Para muitos, não vai a honorável o homem que se sobrepõe à religião e aos dogmas, e que o lucro de ter corpo, alma e espírito está não nos intervalos regulares e nem nos períodos de imensa duração, mas sim num ser congênito apenas e subjetivo. Não procede em mim pensar se o padre é o pagão, nem como o sol desaparece em nosso horizonte e torna-se um deus. O que procede, é a solidão profunda e infinita do Espaço dessa verdade inacabada; e o porquê de ser inacabada? O porquê de barrar no Universo? É porque ainda vemos este reflexo sideral como real tão-somente. Somente o eterno é real porque não é corroborado a finito.
Eu queria falar da solidão e discorreu em mim um impulso quase-Teosófico, mas este mesmo impulso propugnou uma centelha de minha ideia sobre o que eu não queria dizer.
A minha tristeza é o calvário que se alonga em vão, e em vão contempla o cego as almas procelas que incidem exaustas no mar da vida e do sangue, batendo as asas, sacudindo as ondas, acossadas pelo fluxo e refluxo dos vendavais...
E tenho sido sempre (de uns dias para cá) meus próprios ouvidos e minha própria visão, e na medida em que a solidão me constringe, longe do primeiro Vestíbulo, eu choro ainda, como o fatigado peregrino...

29.03.2014
 
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