domingo, 3 de maio de 2015 1 comentários

Exame fracionário

O meu interesse pela vida começa na inação das horas que esmorecem a cada estado de alma incompreendido, a cada partícula incandescente dentro do meu efêmero corpo e a cada lampejo de inspiração por parte daquilo que não sei o que é. Quando a comunicação com os homens me parece escassa, é hora de afundar nas artes do escondido; não pelo fato de estar preso à mente dual, mas pelo fato de que isto é o destino que tenho e compreendo como sendo meu dentro das expectativas que tenho.
À paisagem atribuo um limite exterior de matéria que constitui uma configuração natural de sua condição, e sua fôrma e alinhamento às essências particulares de suas substâncias. À árvore, atribuo ao seu molde o cerne constituído pela seiva bruta de seus caules e raízes.     
A ação instintiva da natureza tem um espírito disforme que faz parte da essência coletiva da evolução, assim, os seus desconformes equilibrados com o universo enigmático, cujos átomos nas suas atividades coordenadas impelem qualquer ideia de alma individual que se possa definir dentro de seu conjunto fundamental; sei, então, que uma pedra ou a alface não podem crer em Deus porque não tem estado com que ver claro a consciência e a simbologia astral em si.
Em mim, entendo que não posso compreender o incompreensível se os meus instrumentos falharem, mas que posso conceber uma subjetividade ponderável talvez; e, se o posso, tenho também o arbítrio de ser objetivo e afirmar numa concepção razoável que os atributos infinitos, cujos fins, mesmo vagos, contêm a visão do meu raciocínio subtendido como humano.
Sim, eis-me: uma espécie de raça privilegiada no processo setenário.
Então, por ser eu um ser que pode ser entendido, ao mesmo tempo carrego a polaridade dos outros seres, e os entendo sem a compreensão de entendê-los a fundo.
Cada folha que cai não na sua devida estação me traz uma indiferente amizade e terna longanimidade de acreditar que essa mesma folha possa ser uma companheira na estrada qualquer, e que sua família pode me dar a sombra necessária, porque, nessa condição, não puder julgar-me; e se não pode julgar-me, eu posso contar-lhe os meus segredos e calar-me quando tiver sede. Chorar nos ombros do mar todas as minhas mágoas e tristezas. Pedir às pedras que rolem nas alegrias de serem inanimadas e de não terem estados de alma para me apontarem o dedo à cara. A paisagem não me dá o caminho da verdade, mas mostra o caminho essencial através dela mesma.
Os artifícios dos homens estão cheios de névoa. Noturnos e sós – precisam religar a sua capacidade pessoal de estarem conectados a um Deus também pessoal. Têm artifícios de dentro para fora, e a consequência de falharem na sua vontade, começa de fora para dentro.
A minha simpatia pela vida está na falha herdada e na paciência de vestir-me com mistério, e, sobretudo, por fim, no despir do ocultismo e da estética para além dos átomos grosseiros e dos objetos definitivos de todas as matérias.
Posso dizer, então, que com essas considerações, cada estado de alma imanente tem uma imantação superior aos outros estados. Ela recebe e dá as impressões corretamente ao físico denso, porém, para formular ou simbolizar um pensamento na matéria universal ou esotérica, precisa inutilmente da simpatia desorientada dos átomos aglomerados e os aspectos transitórios para representar uma ou qualquer outra centelha abstrata.
A alma que temos e que paira sobre os nossos sentidos quase fechados, paira também, (porém abaixo dela) a nossa mente abstrata e a nossa filosofia, e isto é que é o veículo que liga a nossa vontade espiritual ao interesse superior do altruísmo.
Não sou, porém, ocultista. Talvez me falhe à atitude congênita para tal, e assim me vejo como os não-integrados no apostolado das Doutrinas secretas.
Enquanto o secreto para mim é o sonho, vivo a representar neles a competência de não ser uma pedra no meio do mosteiro... Amo a humanidade com sonhos secretos que nenhum poeta ousou sonhar. O que julgo compreender sem saber fazê-lo compreensível a mim próprio, ao terror escuro dos grandes mistérios, testifico a expressão do meu vazio sobre eles.
Onde o sonho é tudo na realidade transitória de mim, ponho ante à Deidade eterna e construtora do universo, os sonhos que esqueci de sonhar...

John 
 
;