quinta-feira, 22 de janeiro de 2015 0 comentários

Vendaval



Como um leque que assopra a matéria 
O horror deste vento me afunda:
Gira a roda da minha miséria 
Em mágoa profunda.

E eu vi Deus a fazer com meu nome
Sete abismos na frente do louro
Todos, todos! Eternos de fome
Minha alma de agouro.

É dorido o olhar do volver 
Esse agouro na mão da existência
Sob a forma de um quase-morrer
Sem ter consciência. 

Ah, e assim, se eu pudesse levar
Essas folhas de cada ninguém 
Sem o fardo de ter que pensar 
No páluim do além.

Vendaval, voz da noite já escura 
Roca e dura, com tom de fereza
Olha  a porta da minha amargura:
Tem vento e tristeza. 

Tu, ó vento do Norte e da areia
Olha a praia que vive comigo,
Rasga a prole e abate esta ideia
De ser teu abrigo;

Olha dentro da chuva de mim
Quantos vidros quebrados eu tenho
Pelas águas furiosas, sem fim
Veja como venho: 

É tão triste esse nosso lugar...
Uma linha de folhas e ventos, 
Sete abismos, e tento ligar
Os meus pensamentos. 

E pressinto, tão fundo e tão frio
Que estes ventos de mor solidão
Se perderam no próprio vazio 
Do meu coração.

John 16/01/2015
 
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