terça-feira, 23 de junho de 2015 0 comentários

Intervalo Doloroso

A doçura de não ter companhia. Fluido de acordar de manha e ter consciência do céu, de ver as nuvens negras, lentas, de branco sujo nos intervalos. Fluido, no desassossego, porque eu não sei se existo e nem quando estarei disponível a findar.
Fluido... Fluido incerto, onde tentei acender uma candeia no meu coração, candeia essa que fosse capaz de iluminar um dia inteiro, na esperança de render uma noite a mais no meu diário lúcido.
Cada nuvem é um juízo, uma doçura e uma espécie de estado indiferente delas próprias, enternecidas pela abstração da razão que não tenho, inventadas na minha invenção dentro do que elas não são.
A doçura de morrerem todos, lentamente, como lágrimas rítmicas. A doçura... Ah! Ah doçura que cada uma me contou de suas razões, ou as histórias morais de suas metafísicas; e isso tudo é uma quadro na minha parede, com a minha infância junto, tudo misturado, com uma só essência, com um só horror...
A moral em torno dos gestos; a religião em torno dos fenómenos. E em tudo, o ser bom, a adoração como uma perfumaria, que arremete a visualidade humilde dos cheiros e dos estados subjetivos.
E todos são como nuvens, cujo Deus que os movera de sentidos profundos, meneiam na companhia dos corpos e das ideias; sem corpos e sem ideias, porque tudo é oco, a alma é oca. Se penso, as nuvens morrem; se vejo, os deuses acabam. Se penso isto e olho, para ver se a realidade é aquilo que sou, sinto o tempo presente com uma dor enorme, onde os mortos estão, mas não existem.
O tempo, que os mantém reclusos deles mesmos na ideia de mim, cuja maior completidão humana, evocasse desterrado a caminho de uma porta sem porta, à liberdade que não os conhecem, seria mostrar todos em outra linguagem de ser, de mortes nenhumas, de coisas nenhumas, e o credo e a bondade não fariam sentido diante e fora de tudo disso.
As nuvens são boas porque simplesmente o são. Mas, moralidade não é religião. Ter credo fundado em bondade é sofrimento; subproduto da sociedade. Ser simplesmente bom é ser bom.
Não quero ter uma bondade cultivada. Eu tento ser honesto, esforço-me arduamente para manter-me consciencioso, digno; porém, à noite, preciso remover o esforço de ser bom, preciso desreprimir minhas más qualidades, desvelar enfermidades.
Minha avaliação de escolha censura nos outros o que em mim nunca tornou-se criterioso, e ser criterioso é enfadonho, porque é difícil aceitar as pessoas tais como o são. Não preciso ser obcecado pela bondade, nem teimoso no capricho. 
Soube eu fazer um ato mal, e ser julgado; soube eu fazer um ato bom, e também ser julgado. Meu Deus... Meu Deus... Meu Deus... Preciso de compaixão, porque eu não sei o que mau e nem o que é bom.
Nestas horas de mágoa, aquilo que fui, sozinho na noite de mim próprio, com todas as portas fechadas, uma tristeza com som de mãos molhadas de lágrimas, a torcer no escuro, gesticula sons e símbolos. Na analise da minha consciência, o mundo parece consistir na abstração de ser consciência-essência – aquele que doou o sentido do mundo na intencionalidade como fenómeno.
Que desapareçam as nuvens e os mortos, e meus pensamentos sejam excluídos da base herdeira das convicções para proporcionar meios e caminhos à pureza irrefutável de Deus?
Para compreender, preciso me dirigir à essência e sintetizar todas as características de fundamentação?
De todo modo, eu, sujeito empírico e concreto, reconheço a minha participação na posição natural do mundo e na proliferação dos seres.
Aí algo, uma mão, um som que levanta o véu de Isis a quem nenhum mortal ergueu; salvo H.P.B, talvez... E me mostra que preciso reduzir a percepção a um estado antes dela mesma. Perder o mundo para ganha-lo. Perder Deus para ganha-lo genuinamente na realidade da natureza, dos homens, das nuvens, da terra, fora de circuito para reter o contato imediato com a disciplina fundamental de todas as ciências...
E no fundo, no fundo da impossibilidade de encontrar a Mônada, abre-se-me um abismo imenso de renúncia e solidão, erguido dos túmulos da desconsolação, com arautos que tocam, com os estrépitos de atabales e címbalos surdos – o mundo se perde em mim, e morre no fundo da minha alma...

John
 
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