quinta-feira, 1 de dezembro de 2016 1 comentários

Emissão 2


Uma tristeza auroral, feita de estranhamento e de falsas renúncias, uma dor na propriedade que não é privada, um corpo que falta energia para ligar a força da natureza e do mundo. Desenrola-se-me na cabeça social que o trabalho, se se realiza, não se realiza em mim – ele não pertence a mim mesmo, e a civilização não é a educação da natureza, mas sim o declínio dela. Uma doença que tem vários nomes.
Quereria, numa fuga contraditória do tempo e do espaço, evadir do mundo do amanhecer, fugir para algum lugar além do mito de Sião, onde as leis são menos fatais, onde a economia não começa e nem ameaça, onde não há partidos nem juntados.
Mas, não! Leio e estou liberto. E, como uma coroa, as leituras são mosaicos da minha desolação. Nesta consideração está todo um sistema, mas não precisam de conclusões, porque nem eu as tenho; são pensamentos vagos, de impossibilidades, de visões ilógicas, como um pano úmido no canto do corredor escuro, mofado e frio.

Todas as tristezas são aurorais. Num momento me sinto alto: a noite. É como subir num telhado para ver a derrota das poesias que falharam até nas metáforas. A minha potência que nem chegou ao cardápio que eu mesmo montei. E as areias cobrem tudo: a minha vida, a minha prosa, a minha filosofia.
Os outros não têm auroras, são comerciantes, que não fazem poesia, outros, lojistas, empregados – gloriosos no êxtase da engenharia e dos campos sociais. Têm todos, como eu, um coração alegre e triste.
Porém, são todos os outros os vencedores do mundo. São todos os outros os iluminados – menos eu.
São todos os outros os construtores das cidades e dos mercados, dos shoppings e das quitandas, instrutores da matéria. Eu? Um pensamento em ruínas, porque, de tanto pensar em construção, não construiu. Os outros: longos edifícios. Eu: eversão sem gesto.
Não tenho a propriedade, e benditos os que a tem por mim.
O outro: o escarcéu pelas nuvens, nunca infame, mas sempre original. Eu: projeção completa de dissonância cognitiva, corsário humano como um movimento na penumbra.
E contemplo a humanidade, não destacado do mundo, mas de cima do cimo da minha ideia de mim, que procura, ao acaso, o objeto oculto da jornada, o qual não conheço, nem nunca vi.
Como um evangelho copiado, releio e minto para mim mesmo, todas as páginas do meu apógrafo. De que me serve reler? São modelos mentais que escravizam a vida, blasfemam contra as pulsões em nome do paraíso, gritam contra a terra em nome do céu.

Os deuses têm pés argila, mas não são cidadãos, nem engenheiros, nem lojistas, nem cientistas... Falta-me ser engenheiro? Então estou triste abaixo da consciência.
O cansaço de todas as palavras – a inutilidade de tê-las, o cansaço de ter que perdê-las, e a humilhação intelectual de saber que as palavras se perdem com a manhã e com as antenas da comunicação cotidiana.
A miséria feliz da condição – fulgores do espírito, correntes do juízo, sofismas dos ofícios, mistérios das ciências e das filosofias – que têm o mesmo movimento que os reflexos físicos, que a gestão que o estomago e os rins fazem de suas secreções.
Chove, funcional para fora das células secretoras, porque o homem não existe, e não morre, porque a morte não o é.
É tarde, não amanhece. Não desejo que amanheça. Quero ficar escrevendo, porque não sou bom para construir castelos e antenas, nem prático, para emancipar matemática.
Nenhum tempo branqueia a penumbra dessa Apocriphia...

John S.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016 0 comentários

A Lira

Enquanto a Lira tanger
Na costa ou no costumeiro
E ouvi-la com seu ouvido
A orelha do Brasileiro;

Enquanto a Lira tanger
No dorso de uma palavra
E lê-la com negros olhos
A vista que teme a lavra;

Enquanto as reclamações
Não forem uma por uma
Crescendo do executável
Que busca no rio alguma

Lição pra compreender
Poetas desta partí-
Cula que chamamos “força”
Do Cosmos a nos florir

No vaso seco apodrece
Um verso muito vivido
Que alguns haviam ditado
No verso do dividido:

“Divide teu pão e prosa
No prato do pensamento –
Poetas do mesmo cosmo
Versejem no aditamento!”

No plaino destas montanhas
Abraços me vão deixando...
E eu vejo, num outro dia
Afetos a nós, voltando...

(E enquanto tanger Lira
Escuto e não posso ver;
Enquanto, me ouvindo e vendo
Não posso ver e nem ser.)

Enquanto tangem as liras
Na idade de outras bandeiras,
Não pode existir na “casa”

Um bando de sérias freiras!


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Emissão 1

“O que é o homem, para dele te lembrares?” – escreveu o Salmista. Há nessa vida importantes questões, que implicam mais do que o uso linguístico.
Saber que a obra é inútil, inoperante; e muito mais aquela que se não fará nunca. Pior, porém, é a que nunca foi feita. A obra feita é pobre, mas existe, ao menos, sob a ideia de liberdade: as razões para as nossas ações, implicitamente gerais, avaliadas racional e moralmente.
Isso é um problema filosófico, mas serve de alguma maneira, em favor do determinismo. E conquistamos, milímetro a milímetro, o campo exterior que não nascera nosso. Exigimos, dimensão a dimensão, o terreno nulo, de urzes.
Nos sonhos somos os mesmos. No ato, a diferente força de conseguirmos o destino. Sim, é um ato que me aproxima da humanidade. É o ato que está inteiramente ao meu alcance, porque, de resto, minhas imputações só podem referir-se ao meu caráter empírico. Porque talvez eu não possa saber coisa alguma sobre as razões das pessoas, nem suas motivações morais. Não posso desatar o nó da real moralidade das ações, nem mesmo de minha própria conduta... Nunca podemos fazer sequer um julgamento razoavelmente bem justificado. Para cada solução não existe um problema. Conhecer todos os elementos de uma questão? Não podemos.
A primeira mentira: a verdade. A verdade? Talvez o que buscamos no campo da arte como no pensamento, dizia Hegel, é a verdade.  E a mesma, está bem claro, é um problema apenas para a mentira. O filósofo concluí daí que ambos são nossos problemas.
A declaração de que devemos amar-nos uns aos outros não explica por que julgamos isso tão difícil, e nem mesmo um auxílio para que o consigamos. E fazemo-lo por cansaço, ou pela timidez absurda de encontrar um apoio, ou pela necessidade de regressar a teoria.
Uma teoria sobre o mundo; uma teoria humana; um diagnóstico; e uma prescrição para corrigir o estado de coisas – mais nada. Os bonobos preferem o amor, a fazer o pensamento.

São horas talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida. Digo do que ontem fui, e procuro explicar como cheguei aqui. Uma avaliação racional dela, distinguindo aquilo que eu digo da motivação que eu tive para dizê-lo. Mas um de meus principais interesses é a verdade ou a falsidade daquilo que eu mesmo digo, a existência ou a não-existência de razões para acreditar no que acredito. Nesse caso, a motivação me parece ser irrelevante.
“A falsidade de um juízo não constitui para nós necessariamente uma objeção” – escreveu Nietzsche –, “a questão é até que ponto ele faz a vida avançar, preserva a vida e a espécie, reproduzindo-a”. De um lado, ele descreve um juízo como falso, e, do outro, sugere que esse juízo pode apresentar uma espécie de virtude capaz de melhorar a vida. Mas como ele sabe que o juízo é falso?
Dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude, como cria o grande Pessoa. E não há nada de real na vida que o não seja porque se descreveu bem. Desse modo, o filósofo deve ter alguma ideia do que lhe serve de justificativa para pensar assim. 

Mover-me é fazer os meus próprios julgamentos à luz das evidências de que disponho, incluindo o que os outros dizem sobre os assuntos. Isto é, declarar-se é ter um valor; dizer-se é objetar.  
A palavra “natureza” me é confusa. Posso, numa terminologia filosófica, analisar uma verdade por definição dependente apenas de seus próprios termos, mas não poderei dizer coisa alguma sobre o mundo. Sobretudo, possuo as minhas previsões, submetidas ao teste da observação e da experimentação de mim mesmo, sob o princípio da verificação.

Ah, absurdos disfarçados! Absurdos de serem um sistema fundado na decência comum da regra de ouro... Visões transcendentes da moralidade absurda, onde a concepção da perfeição humana é inegavelmente masculina, e que por meio de preocupações metafísicas a respeito da realidade última, vai o homem dignificar a crença através da fé.

Tudo quanto tenho feito, pensado, sido (ao menos até aqui), é a totalidade da experiência de mim mesmo e de alguns outros. Noto, com um pasmo não metafísico, que todos os gestos que vagamente recordo, as minha idéias claras, propósitos lógicos, não foram, afinal, mais que penumbra espontânea, grande desconhecimento. No mais íntimo do que pensei não fui eu? Enchi tempo com consciência e pensamento – descaminho dos outros.
Não sei o que é a alma. Consequentemente passei a desconhecer Deus como uma entidade real. Deixei de tentar defini-lo com as palavras humanas. Hoje retenho de início o preceito central de que tudo é sujeito às leis fatais. E, não podendo eu reagir independentemente delas, reagiria apenas pelo próprio fato de elas reagirem em si.
Considero, então, a significância da verificabilidade.
Significado humano: verificabilidade existencial. Por isso não abandonei Deus completamente, porque busco razões para pensar que seja verdade (talvez a minha verdade), em vez de motivos para querer que seja; e é onde encontro questões que, por si mesmas, propõem outras.
Em face do conjunto de atitudes, a descrença pressupõe uma conotação sectária. É no amor que podemos sequer ter a mínima condição em fazê-lo, e que talvez seja o mais verdadeiro conjunto de atitudes.
“Se o amor fosse onipotente, seria Deus” – diz Comte-Sponville, “e que o amor seja Deus é algo duvidoso (já que o amor existe e Deus poderia não existir)”. Que o amor, existe, pretende-se dizer que existe de algum modo – uma vez que a vida, tal como a entendemos, é um processo no tempo. Se Deus é amor, como posso compreendê-lo, se o amor não se encontra no tempo?
Tudo muda, tudo flui, tudo passa. É a verdade de Heráclito. É a verdade do mundo.
Como não conheço o todo, também não posso denominá-lo Deus, como fazia Espinosa. Sobretudo não reivindico definir-me, pois nunca escolhi ser ateu. E recolho-me em mim mesmo, tal qual Etty Hellesim, e esse eu mesmo, eu denomino Deus.
O mundo? Só posso conhecer tal como me parece.
Fui a um momento, e já passou. Já, agora, o conhecimento de mim provém da receptividade de minhas impressões: pensando objetos, coletando conteúdos... Esforçando-me a fundo, a lapidar a melhor versão de mim mesmo, perante a realidade que não me é suprema, nem a última. Porque meu desejo é saber não só o que são as coisas, mas por que são as coisas...

Há uma fadiga da inteligência, denominada psicologia racional, e que pesa mais do que a emoção e a ambição: a fraqueza da alma incorpórea por não existir, a doença da procura da alma e das divindades, que fogem da introspecção e da qualidade humana corporificada e que agem no mundo...
Sim, o mistério dói no fundo da mente; até mesmo no fundo do coração, se assim nos serve a sentença para expor tal dor.
Por detrás da minha derrota mística pelo terreno racional e solitário, surgiu realmente solidão, horrorosa, côncava, onde encontrei uma fuga para fora de Deus. E sob a tensão da característica incontornável da minha condição humana – a antinomia – não invoco nem Deus nem a mortalidade, e no entanto, não faço mais do que repetir a esperança humana comum de justiça...

John S. 
 
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