terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Calamitatis

A sede de compreender, de ter, são maiores que os crisântemos que eu vi num jardim pressuposto, na orla da mais vil de todas as necessidades dependentes de vir a ser.
São maiores que as saudades os saberes, é maior do que a surpresa o abranger.
Sinto-me iniciado. Leio não mais para me distrair, e ergo o olho para os livros, estonteante e tão próximo de centelhas factuais.
Não há grande aventura senão como ter amado primeiro a si mesmo, como direito verdadeiro e direto; mas, me pergunto o que é o amor... O que seria o eu, ou o amar-me a mim mesmo... 
Não sei. Não sei do mim, do ser, do devir, do ser-ser-não-sendo.
Talvez eu goste das imagens e da personalidade de que me tornei. Este quando se tem personalizável, montado com os outros. Mas o que tenho delas em mim? A verdade enfrenta todos os problemas, quase intransponíveis só de pensar na própria palavra. E estou perdido, no canto de um deserto sem canto e sem centro.

Dos livros ou das pessoas... Que seja; eis-me aqui! Tão próximo do transcendente, e tão sensivelmente exprimindo, dizendo aos meus irmãos que exprimir é morrer.
Ignoro o tempo, às vezes sentindo-o passar sobre páginas e páginas, sobre diálogos e observações; não as observações em si, mas a sensação delas. Prolongando a pressa de externarmo-nos, sem o devido envolvimento interno da consciência.

Um microscópio por vez, e é possível deslocar a razão de um lado para o outro, tendo faces distintas, porque esse é o mal do conhecimento: o de poder andar a roda dele, e ver-se do outro lado.
Não podemos possuir um livro sequer, nem possuir um sonho. Perdemos, antes de nascermos, a capacidade de exprimir qualquer que seja a verdade, e distinguimos-nos dos elementos sutis, invisíveis, à roda de um tumulo sem fim.
Um regaço por vez, um bordado por dia.
Na minha alma ancestral, observo riscos, brechas temporais e fissuras espaciais, nos quais, ignobilmente desesperado e ignorante, passo a registrá-los dentro de mim. Traço-os sem poder crer neles como sendo a verdade total, e me examino como a uma paisagem na sombra: eu creio que posso pensar. Mas a geografia da minha consciência é escassa, e não possuo alheamento necessário para participar comigo mesmo em mim, sem estranheza.
Como dizia o grande Pessoa: “Tudo é complexo para quem pensa”. Eu penso, logo existo na dificuldade de justificar-me; de todo modo, quem não pensa não pode existir? Mas, de qualquer jeito, não importa, porque, eu não conheço a Mônada, e, se eu realmente posso pensar junto à ele, não sei com o que pensaria, nem o porquê de pensar, visto que a engrenagem cósmica à matéria é inerente a solidão profunda. Dessa maneira: Deus está sozinho.
Se a consciência da vida consiste, ante a todo esse abandono, em iluminar o caminho daqueles que estão nas sombras, sabem os deuses onde encontrar o mapa da realidade, e sabem também que essa senda de fulgor cintilante tem a capacidade de cegar.
Se eu bem pudesse coroar a mim como um Buda, e doe-me a cabeça por ser um sem poder o ser. E quão mais belo seria ver por entre as flores; por entre o barro e as pedras; por entre as nuvens e os ventos, o quão profunda é a quietude do coração, inteligível não para mim, mas para um sábio que conhece tal órgão oco, cheio de pericárdio, dinamicamente funcional para bombear o sangue. À parte o sangue, pudesse eu livrar-me de todos os substratos da existência, da cadência de todos os desejos e apegos.
Sim, nascimento é sofrimento. Renascer é estar suscetível a sede, de modo que tudo se funde e confunde, e as metodologias da libertação não funcionam.
Disseram que para encontrar-me, e não pensar em procurar-me. Que não preciso cogitar para ver-me; que eu preciso simplesmente encontrar-me.
Mas o anseio que me leva aos desejos de mim subsiste e relaciona-se com fraqueza à existência sutil do poder de sentir, da força da sensação.
Por temor, me agarro a um ideal; por um ideal, me refaço e modelo. Pronto! Estou em paz comigo e com Deus.
No meu estado de espírito a supressão de libertação é abrigo para um fim religioso, político, econômico, jurídico, familiar.

Mas eu percebo que não estou feliz com isso tudo, que suprimir-me representa a limitação de mim mesmo...
A substância do caminho é o prazer de ter-nos fora de nós mesmos, sem saber agir por dentro, e isso me corta a frio, a mágoa, o coração... Tudo, menos os outros! Aqui dentro, depois lá fora!
Submissão é o nome da existência. E tudo reside por pressão e cansaço, e jugo o padrão de pensamento em perspectiva; em esperar, porque tudo cansa...
E a opressão é, em suma, projetada por um pensamento. Esse pensamento é exercido por outro, que também em suma foi exprimido por uma característica variável antecedente.
A proibição de tudo quanto penso ou tento impedir me proíbe de pensar em obstar.
O receio de não poder encontrar qualquer paraíso, a suspeição de ter acabado sem ter começado, é-me peso sentido real. O medo implica em abrigo, e esse abrigo constrói crenças, esperanças. Medo procede de desespero, que por seguinte, procede de esperar; esperar procede em sofrimento. Toda leitura leva ao menos pastos verdejantes. É aonde cheguei de repente, e não posso exprimir, porque talvez não haja o além na matéria.
O cérebro é indisciplinável, tanto na lucidez das analogias quanto na intenção moral do mistério adornado.


Feliz talvez seja o Yogi, que se encontra no sagrado instinto de não ter teorias...


                                                                                                                                      John

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